Este não é um texto sobre amor. Mas é sobre o início de um.
Era véspera de Páscoa e um arco-íris desenhou-se no céu. Um não, dois. Atravessavam-no de lés a lés.
Num amor-sim nunca precisamos de provas, mas quando o céu confirma que a vida é a cores, temos tendência para acreditar.
O carro transformou-se na nossa cápsula de histórias - umas mais felizes do que outras - mas, naquele momento, eu tinha de trabalhar. Esperavam-me oitenta quilómetros de estrada e um autocarro para apanhar. Acabei por o perder de propósito, só para ter mais uns minutos.
Lembro-me como se fosse hoje dessa viagem em contrarrelógio, depois de ter perdido toda a margem de erro e de ter seguido no meu próprio carro. Entrei no palco e a música já tocava. Nunca acontecera antes, mas eu sentia que não estava atrasada. Nunca estamos atrasados quando nos sentimos felizes.
Chovia lá fora. No palco, declamaram-se poemas que intercalavam os aplausos de uma música bonita que eu não ouvi com atenção. Contava os minutos para o final, com borboletas na barriga de quem não estava ali de corpo presente.
“Está a chover, eu apanho-te aí.”
Eram dez e meia da noite e eu não tinha jantado, o que fazia surgir aquela dúvida existencial sobre se as borboletas eram fome ou uma ansiedade boa.
“Por mim vamos ao McDrive e comemos no carro.”
Isto não era para ser romântico. Era para ser simples.
Na verdade, não era para ser nada. Era só para matar a fome. Ou as borboletas. Ou a dúvida.
Chovia lá fora. E nunca um hambúrguer do McDonald’s me soube tão bem.
Os vidros embaciaram as luzes da cidade. Os pingos da chuva alimentavam o rio diante de nós. Era também isso a nossa música de fundo, numa felicidade estranha entre o silêncio e a vontade infindável de querermos saber um do outro.
Aquele tornou-se um lugar confortável. Não por o ser de facto, mas porque ali podíamos simplesmente ser. Às vezes, podermos ser já é tanto que se torna tudo. E ali éramos só isso: tudo. O que somos, o que fomos, o que nos poderíamos tornar. Não um com o outro, mas, seguramente, individualmente melhores.
Havia paz num não julgamento. E talvez por isso aquelas quatro paredes com rodas se tenham tornado num porto de abrigo seguro para nós. Sempre achei que todos os amores-sim nasciam de portos de abrigo e, mesmo sem saber se estávamos a construir um, esse era um sentimento bom. Mesmo quando a vulnerabilidade interrompia as gargalhadas, mesmo quando as memórias positivas davam lugar às menos boas. Quando somos humanos, somos isso tudo, porque (só) pensamos com o coração.
E foi o coração que nos abraçou naquele momento em que choveu torrencialmente.
Disso, continuo a ter a certeza.
Falámos por horas. Tantas, mas tantas horas, que a lua se pôs e acabou por amanhecer.
Era domingo de Páscoa, como hoje.
E embora essa não seja bem a verdade, foi assim que um amor nasceu.
Patrícia Luz
5 de abril 2026


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