Mostrar mensagens com a etiqueta Texts. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Texts. Mostrar todas as mensagens

domingo, abril 19

Unanswered questions

"Se um dia sentires que tens algo para me dizer, liga-me."

Nunca ligaste. E talvez essa ausência seja a resposta para todas as perguntas que ficaram por fazer.
Talvez não sintas nada. Talvez não saibas sentir. 

Ou talvez sintas demais e, ainda assim, nada tenha sido suficiente.

Hoje em dia, as pessoas já não sentem tanto, pois não? 

Ser emocionalmente analfabeto parece trazer uma estranha paz a alguns.   

Hoje pensei ligar-te. Na verdade, penso nisso todos os dias. Ao contrário de ti, sinto a tua falta.
Não pela falta que (me) fazes, mas pela saudade do que fomos juntos. 
Daqueles dias em que saíamos de casa sem planos e regressávamos com o cabelo salgado, ou das noites em que adormecíamos ao som da música que nos esquecíamos de desligar.

Queria dizer-te que podíamos ficar em silêncio. Que não precisamos de ser mais nada.
Mas podíamos ser verdade.  

As pessoas verdadeiras dizem o que dói, mas também honram o que foi bonito. 
As que não o são tendem a afastar-se. E custa escrevê-lo enquanto te sinto muito longe.

Talvez as pessoas se afastem porque gostam de nós. Mas talvez não o suficiente.
Ou talvez não sintam nada e a única escolha seja mesmo seguir em frente.

Honestamente, não acredito em nada disto.

Às vezes, podíamos escolher gostar mais. Mas o coração não se programa, e ainda bem. Ninguém merece ser amado pela metade. Especialmente quando te amei inteira. 

Tenho medo. 
Mas tenho mais certezas.

E talvez sejam elas que me afastam de quem não sabe o que quer. Por essa razão, dou por mim a ponderar perder-me das minhas convicções para me encontrar de novo — talvez com certezas diferentes, talvez sem certezas nenhumas.

Sabes... é assim que me deito hoje: sem certezas de nada. Sem saber se as pessoas amam de verdade. Sem saber se a própria verdade existe. Se o que me dizias veio do coração, ou só da boca para fora.

São tantas as perguntas sem resposta.
Não que eu queira saber, mas talvez estejas feliz. Talvez aliviado. Talvez já nem te lembres de mim. Talvez exista quem te ocupe o pensamento. E sabes que mais? Está tudo bem, porque estou bem. 

Mas conhecer-te por dentro permite-me saber qual é o teu outro lado e acho que é isso que me custa: ter merecido o teu lado mau, quando acredito no teu lado bom. Enfim...

No que depender de mim, o telefone não irá tocar. Mas no meu caso, quero que saibas que ficou muita coisa por dizer. 

xx

Patrícia Luz 

18 de abril 2026





domingo, abril 5

Dia 730

Ninguém conta os dias de um não-amor. Mas todos os que contam os de um amor-sim acabam por perder-lhe a conta. Porque esses são para sempre. E o sempre tem um número infinito de dias.

quarta-feira, janeiro 27

Crónica | Notas de Telemóvel

Notas de telemóvel.

(...)
Estou exausta. Creio que isso é razão mais do que suficiente para ser louca ao escrevê-lo.
É exatamente meia noite e meia agora e os meus olhos pesam toneladas. Peso jamais comparado ao daquele avião que partiu no Domingo, nas minhas costas, sem que o visse.
Não sei se era grande, ou pequeno. Mas pelo quanto o seu barulho fez vibrar o chão, creio que fosse tão poderoso quanto aquele (nosso) abraço que foi capaz de parar o tempo, ao ponto de minutos parecerem horas.
Gravei esse momento como uma fotografia. Mas uma fotografia com barulho.
Afinal de contas, o que te quero dizer com isto, é que apesar de não ter visto o avião, naquele momento, também me senti a levantar voo. E que bom tem sido voar contigo. 

Patrícia Luz 







domingo, abril 5

Vaificartudobem: 15 dicas de como ocupar o tempo em casa




Estás aborrecido e já não sabes o que fazer mais em casa nestes dias de #quarentena? 
Este post é para ti! 

Estas últimas semanas têm desafiado a nossa criatividade e paciência no que toca a inventar coisas para nos ocuparmos enquanto ir passear e visitar os que mais gostamos não é opção. Aqui deixo-te 15 dicas para ocupares o teu tempo de forma útil e criativa: 


1) Cozinha novas receitas
Não precisas de ser um chefe para te aventurares na cozinha e pores à prova novas receitas, nem que sejam umas simples panquecas. Para mim cozinhar é uma ocupação perfeita, quase como uma terapia. O tempo voa! E todos os problemas deixam de existir. Experimenta e identifica-me com o hashtag #apatcozinha! 

2) Lê. 
Lê muito. Lê pouco. Lê em voz alta. Lê uma história aos teus filhos. Mas lê. 
O truque é começares a ler algo que realmente te interesse. Se gostas de carros, lê sobre carros. se gostas de marketing, lê sobre marketing. Lê algo que te acrescente. 

3) Desenha ou pinta 
Estimula a tua criatividade. Descobre os teus lápis de cor que se encontram naquela gaveta que não abres desde o 6º ano de escolaridade e dá asas à imaginação. Todos nós temos um artista dentro de nós. Existem também imensos livros de mindfullness que podes pintar. O que eu ando a pintar chama-se "Paraíso Tropical - um Mundo para Colorir" de Millie Marotta). Em último caso, imprime um desenho que gostes do google e pinta-o. 



 4) Tens um instrumento perdido em casa? É hora de te dedicares a ele! 
O youtube tem imensas aulas online sobre diversos instrumentos. Porque não aproveitas este tempo para aprender algo mais? Assim, quando sairmos disto, vais poder mostrar algo aos teus amigos e animar os serões em família. Pensa nisso! 

5) Fazer limpezas, pinturas ou arranjos em casa
Quando existem planos alternativos, fazer limpezas pode-se tornar uma seca. Ninguém gosta de trocar um passeio fora de casa, por limpezas. Aproveita agora para fazer limpezas gerais e destralhar tudo o que já não te faz falta: seja isso roupa, brinquedos antigos ou livros escolares que não voltarão a ser usados por nenhum dos teus três filhos. Aproveita também que tens o teu homem em casa e juntos pintem aquele muro que já está a precisar ou arranjem aquela torneira que pinga água no jardim há séculos. 

6) Medita
Aproveita este tempo mais livre para criares um novo hábito saudável na tua rotina. 
Se não sabes como se faz, procura por grupos de meditação orientada online. Senta-te no jardim, na varanda, ou naquela divisão da casa que te transmite calma, coloca uma boa música e desfruta. 



7) Aprende uma língua nova
Aposto que aquelas conversas com o teu primo que está emigrado na França, estão meio enferrujadas. Aproveita agora! Estuda umas frases novas e liga-lhe em video chamada para treinarem juntos. Assim fazes dois em um: matas saudades e aprendes algo novo. Instala aplicações no telemóvel, vê sites de aprendizagem, traduz as tuas músicas favoritas ou procura aquele livro antigo da escola e volta a fazer os exercícios. 

8) Descansa! 
Se a tua vida é uma roda viva e nem sempre tens tempo para aproveitar os momentos em família, os momentos para estares sozinho... este é o momento ideal para parares. PARA, inspira, expira, respira. Dorme mais de 8h00 de sono. Faz o que mais gostas!!! 

9) Se gostas de exercício, aproveita para te manteres em forma
Existem inúmeros canais de youtube, perfis de instagram, entre outros, com aulas e treinos que podes fazer. Apenas te deixo a nota que o deves adaptar às tuas capacidades motoras e teres cuidado na sua execução. Ninguém quer que vás parar ao hospital nesta #quarentena. 



10) Faz um balanço da tua vida
É isso, aproveita e faz um balanço da tua vida. Escreve num papel tudo aquilo que te faz feliz neste momento e tudo o que te deixa desconfortável. Traça um plano para os próximos seis meses com objectivos específicos e alcançáveis, bem como as estratégias que irás usar para os alcançar. O tempo é precioso. Usa-o agora de forma útil!   

11) Fotografa  
Se gostas de fotografia, tens um telemóvel ou uma máquina fotográfica, aproveita para registar momentos que te deixam feliz. Fotografa o teu cão, os teus filhos, o teu namorado. Fotografa-te a ti mesma se isso te fizer feliz também. Fotografa o pôr do sol da tua janela, os festejos dos teus vizinhos, a chuva ou o arco irís. Colecciona memórias para mais tarde recordar. 

12) Escreve
Ninguém precisa de ler o que escreves-te. Não precisas de escrever sem erros, com virgulas certinhas ou com todo o sentido do mundo. Escreve para ti. Escreve para alguém, mesmo que esse alguém nunca venha a saber que o fizeste. Escreve para o futuro. Escreve sobre o passado. Escreve sobre o que sentes agora. Se não sabes sobre o que escrever, eu deixo-te aqui uma dica: escreve 5 coisas sobre as quais gostavas de agradecer hoje. Começa agora.



13) Namora
Se tens a sorte de ter a tua cara metade contigo, aproveita! Sabes quantas pessoas gostavam de estar no teu lugar neste momento? Façam pipocas e vejam a série que acabou de sair. Cozinhem o vosso prato favorito, arranjem-se e criem um ambiente de restaurante em v/ casa. Façam amor. Digam aquelas coisas que não tem tido tempo para dizer nos últimos tempos. Façam planos para quando isto acabar. Ensinem algo novo, um ao outro. Seja isso, jogar playstation, fazer crochê ou o pino. 

14) Cuida de ti 
Aproveita para fazer aquela hidratação ao cabelo ou à pele que andas a adiar há séculos. Não tens materiais em casa? faz a tua máscara com óleo de côco ou mel. Procura no google e experimenta! Repara as tuas unhas. Faz aulas de maquilhagem online. Experimenta novas formas de conjugar a tua roupa. Escolhe os biquínis para esta estação. 

15) Organiza/limpa as fotografias no teu computador/Disco externo
Aposto que algum de vocês tem as útimas viagens a precisar de uma limpeza. Se forem como eu que tiro 5 fotos iguais para encontrar a perfeita, este é o momento ideal para libertar espaço nos vossos computadores e discos externos. E já que estão com a mão na massa, aproveitem para organizar tudo por pastas. 


Quais destas quinze coisas já fizeste nesta quarentena? Conta-me nos comentários! 

Beijinhos, 
Pat 


domingo, março 22

O que é que a COVID-19 nos veio ensinar?


A correria das nossas vidas roubava-nos o tempo. 

O metro amontoava rotinas. 
Em hora de ponta, pessoas atropelavam-se para ver quem chegava primeiro ao piquete de saída. O mundo rodava mais um pouco, o sol punha-se no horizonte sem que ninguém o apreciasse e o jantar de mais um dia encontrava-se por fazer. Os trabalhos de casa dos mais novos esperavam o ralhete dos pais, exaustos e sem paciência alguma para lhes dedicar um pouco de si mesmos. O jantar prosseguia em silêncio, muitas vezes de telemóveis em punho.  

No fim do mês passado, como em muitos outros finais de mês, escritórios transformaram-se na casa daqueles trabalhadores que, para garantirem o seu desempenho profissional, a imagem e o seu bom nome, cuja maior parte dos casos não é reconhecida nem tão pouco recompensada, descuravam as suas vidas em prol do fecho de contas da empresa que lhes impõe prazos, mas que se esquece sempre do aumento salarial merecido. 

No fim de semana passado, o tempo voava. Tínhamos cinco dias para fazer planos - no pouco tempo que nos sobrava -, e dois para os cumprir. Sem esquecer que a roupa não se lava, nem passa, sozinha. E infelizmente, a casa também não se arruma por si só.

A distância dos familiares estava tão perto quanto nos apetecesse, mesmo que isso significasse apanhar um avião e viajar durante uma ou duas horas. Abraça-los era uma questão de vontade, embora tantas vezes deixada para depois. Depois abraçamos, depois beijamos, depois passamos por aí.... Porque  no final de contas?!... Eles estarão lá, naquele lugar, de braços abertos à nossa espera, passe o tempo que passar. 

Um dia de sol convidava-nos a passear. 
Cada um de nós com as suas preferências. Os caminhos que escolhemos levam-nos a tantos lugares.

À praia, ao jardim, ao shopping mais próximo; àquele lugar secreto que entendemos só nosso. Ao restaurante que nos envolve em sabores, ou àquele piquenique em família de que nos vamos lembrar no próximo Natal. Sem esquecer as viagens programadas ao pormenor para o outro lado do mundo, naquelas férias que tardaram em chegar. 

As línguas, as raças, a multiculturalidade eram tantas vezes uma barreira na nossa comunicação. Motivo de ódios e descriminação. 

A correria das nossas vidas roubava-nos o tempo. 

O tempo para o que é verdadeiramente essencial. O tempo de ouvir as ondas do mar rebentar, o tempo de parar e abraçar os nossos filhos no final de mais um dia, o tempo de agradecer por mais um pôr do sol no horizonte, bem como a arte gratuita que nos é oferecida todos os dias no céu. 

O tempo depois do trabalho a que deveríamos ter direito às nossas vidas, sem deixar em causa o nosso profissionalismo. O tempo que vivêramos à pressa porque a seguir é segunda-feira. 

O tempo para nos dedicarmos aos nossos entes queridos. Porque na verdade, ele foge e, às vezes, é tarde demais. O tempo para vivermos os lugares que fazem cada um de nós felizes. Com calma. Sem pressas.... 

A correria das nossas vidas trouxe-nos para casa. 

De repente, os metros já não enchem. Os escritórios estão vazios. As contas das empresas ocupam o segundo plano. Os lugares que amamos, ficaram do lado de lá da porta. Já não podemos ouvir o som das ondas quebrar, embora, por sorte, o céu ainda nos traga o pôr do sol. Os sinais luminosos da avenida, mudam de cor sem que ninguém os espere. As coisas que comprávamos em excesso, já não nos fazem tanta falta assim. De repente, os nossos entes queridos ficaram excessivamente longe, mesmo que morem ao nosso lado. Inevitavelmente, o mundo comunica a mesma língua. Unem-se culturas, unem-se raças, unem-se esforços. Brancos, pretos, índios, chineses, muçulmanos ou cristãos, entre outros, são tratados simplesmente como pessoas. O tempo já não voa. O tempo passa mais devagar. No ritmo certo, talvez.

Os pássaros fazem-se ouvir nas ruas. Não porque não se fizessem ouvir antes, mas porque a correria das nossas vidas não nos permitia ouvir música boa. Dizem os entendidos, que quando perdemos um sentido, apuramos outro, não é verdade?

Os aviões libertaram os céus. Os navios atracaram nos portos. 
As fábricas deixaram brilhar os céus de azul. E o ar ficou agora mais leve. 

A correria das nossas vidas roubava-nos o tempo. A correria das nossas vidas, trouxe-nos para casa.
O que será que ser tão pequenino e invisível nos veio ensinar?  

Não foram precisas guerras. Armas. Ou fogo. 
Não foram precisas granadas, pólvora ou sangue. 

De repente aprendemos A VIVER. Em igualdade. 
A estimar cada dia das nossas vidas, com saúde. 
A estimar cada pessoa, com o valor merecido.
A AMAR, mais, melhor e devagar. A nós próprios, à natureza e ao que nos é concedido todos os dias. 
A AGRADECER. 
Especialmente O TEMPO que a correria das nossas vidas, nos tem roubado. 

Um beijo de esperança, 
PAT 

sábado, janeiro 4

A todos os pais que se estão a divorciar,

Quero escrever-vos.
Talvez neste momento não se lembrem daquilo que vos uniu, nem do quanto gostaram um do outro. Acredito que o amor pareça ter sido demasiado curto para ter alguma importância agora e que o vosso maior desejo seja livrarem-se rapidamente desse período menos agradável por que estão a passar. 

Infelizmente eu sei que o amor, por vezes, acaba. Defendo que todos temos o direito de poder dar uma nova oportunidade à nossa vida. E desejo a todos vós a maior sorte nessa reconquista pela felicidade. É preferível assim do que viver num engano.

Ainda não há muito tempo escrevi e incentivei todas as pessoas que não estão felizes a mudarem. Convosco eu não faria diferente. 

Acredito que devemos batalhar até compreendermos que o sumo que estamos a extrair dessa batalha não está a ser doce o suficiente para nos alegrar a alma. Depois, devemos seguir. Seguir leves, com a certeza de que demos o nosso melhor. Mesmo que isso acarrete alguma dor nos primeiros tempos de conformação, que por vezes, para alguns, pode até durar a vida inteira. 

Não é fácil acreditarem no que vos vou dizer. Estarão demasiado cegos a levar a vossa avante sem olhar para trás e é natural que existam sentimentos à flôr da pele. Uns de vocês com mágoa, outros com raiva, alguns tristes, outros felizes até por se verem livres de um ambiente tóxico. Papeladas para trás e para a frente, bens a dividir por este e por aquele, família ao barulho e até guerras desnecessárias à mistura, que nenhum de vós pensou comprar quando deram o nó. Outros mais conscientes e pacíficos. 

Aquele cenário trágico de um barco a afundar, quando não houve mais ninguém a dar à manivela para o levar a bom porto.  Aquele cenário de luz ao fundo do túnel, quando tudo terminar.

Eu sei.

Divorciem-se à vontade.
Mas só não se divorciem dos vossos filhos. Em nenhum momento.

Quero escrever-vos.

Nenhum filho merece o divórcio dos seus pais para consigo. 

Em todos os momentos vocês continuarão a ter um papel na vida dos vossos filhos. E se divorciarem-se é a única solução para a vossa vida conjugal, lembrem-se sempre que nenhum dos vossos filhos teve culpa disso. 
Nenhum dos vossos filhos deve sentir a vossa falta, porque onde quer que possam ir, devem manter-se presentes sempre. Nenhum dos vossos filhos deve carregar as vossas dores. Nenhum dos vossos filhos tem que escolher entre vocês os dois. Nenhum dos vossos filhos tem que ser comprado por um de vós com coisas. Nenhum dos vossos filhos escolheu nascer. Nenhum dos vossos filhos desejou ver a sua família desmembrada, por muito que possa ser o melhor nesse momento. Nenhum dos vossos filhos tem que vos ouvir falar mal um do outro ou ver-vos discutir.
Porque mesmo que vocês não se amem mais, os vossos filhos amam-vos. 

Amam-te a ti, que és seu pai. 
Amam-te ti, que és sua mãe. 

Quero escrever-vos, para vos lembrar que no meio do vosso turbilhão de emoções, existe um outro turbilhão de emoções a acontecer em paralelo e que muitas das vezes vos passa ao lado: o dos vossos filhos. O que os vossos filhos escondem, porque já vos vêem tão aborrecidos com tudo o que vos rodeia, que não querem ser mais um peso na vossa vida. 

Divorciem-se à vontade, mas nunca se divorciem dos vossos filhos.
Nem das emoções deles.

Nem sempre tudo está bem depois de vocês ficarem bem.

Um beijo,
Pat 



sábado, agosto 31

No parapeito da minha janela para Lisboa



Bateram as seis horas. 
O calor de mais uma tarde de Agosto doirava os céus da cidade de Lisboa. 
Embora se sentisse uma certa calma justificada pela ausência da maior parte dos citadinos habituais para o seu período de férias, a azáfama da hora de ponta fazia-se notar. 
Os aviões não davam tréguas aos céus. Minuto sim, minuto não, cruzavam-se partidas e chegadas pela janela daquele quarto de hotel localizado no décimo piso.
Lá fora, ecoava o barulho do trânsito. Pára, arranca. Pára, arranca. Carros, motas, buzinadelas. 
O barulho dos aviões contribuia para a sinfonia. 

Do lado de cá, havia calma. O sol beijava o edredon branco do quarto e a luz era sobretudo inspiradora, evidenciando algumas sombras, entre elas, as dos aviões que passavam.
Foi assim que ela se deixou cair como um peso morto sobre a cama depois de mais um dia de trabalho. Ás vezes, é necessário parar. Às vezes é necessário parar, assim mesmo, no meio do caos. 



O sol baixava. E o ar quente da rua chamava-a. 
Nem trocou de sapatos. Foi assim mesmo. 

Pelas ruas, cada pessoa na sua vida. Umas atarefadas, outras de telemóvel apoiado no ombro a colocar a conversa em dia com quem estava do lado de lá da linha telefónica, enquanto carregavam sacos de compras; muitos a correr para não perder o metro. E ela: que no seu compasso, subia a avenida em direcção ao Parque Eduardo VII, observando os raios que penetravam a folhagem das árvores, dourando-lhe a face.
Apesar do barulho, havia silêncio. 

Talvez não devê-se lá ir, mas por tantas vezes foi aquele o palco da sua tranquilidade, que não havia mais lugar nenhum na cidade a fazer jus àquilo que queria sentir naquele momento. Paz.  

Sentou-se no parapeito daquela montra para a cidade e deixou-se ficar por tempo indeterminado a observar o que a rodeava. Não sei quanto tempo foi. Porque ela também não. 




Vários idiomas eram barulho de fundo, a par e passo com a sinfonia que vos descrevera anteriormente. Fotografias sem fim iam sendo tiradas, por todas as pessoas que ali passavam: famílias inteiras, grupos de amigos, casais apaixonados, bloggers e influencers, fotografos profissionais, fotografos amadores, pessoas sós, pessoas novas, pessoas velhas, pessoas que nem tão pouco sabiam tirar fotografias. Todos que por lá passaram, por lá pararam. 

Lá em baixo, crianças rebolavam-se na relva com a inocência própria da idade. Cães corriam desalmadamente para compensar a liberdade que não tiveram claramente durante todo o dia. 

Cima abaixo, marcavam compasso várias pessoas que aproveitavam o final de tarde para pôr o treino em dia. Circulavam, ao seu lado, bicicletas e tortinetes alameda abaixo, alameda acima. 

Nos bancos laterais, namorados beijavam-se de um lado, namorados discutiam do outro. Todos acabaram o dia envoltos num abraço. Como deveria ser sempre. 

Havia quem bebesse um copo. Quem fizesse video-chamadas para o outro lado do mundo. Havia quem, como ela, estivesse simplesmente simples (sim, simplesmente simples) a aproveitar o momento. 

Verdadeiramente, não havia paz nenhuma. E foi aí que ela entendeu, que a paz parte de dentro de cada um de nós.



Os aviões não davam tréguas. Minuto sim, minuto não. Lá iam. Lá vinham. 
Em alguns momentos desejava ir dentro de um deles. Foram tantas as viagens pensadas nos últimos tempos. Nenhuma se cumpriu.

O céu apurava as cores do pôr do sol. Um degradê entre o azul e o laranja pintavam o céu nas suas costas, enquanto uma paleta de cores pastel ganhava lugar diante dos seus olhos.
A temperatura teimava em não baixar. A noite chegava.

Aos poucos, acendiam-se as luzes da cidade e, na rotunda do Marquês, as vidas de cada um iam tomando o seu rumo. Uma roda viva de vida circulava ali. 
A Avenida da Liberdade ganhava a magia que o rio por cima dela reflectia. E o castelo de São Jorge, bem... o castelo de São Jorge, por lá ficava, como sempre, a completar a moldura. 

Era tempo de agradecer. Agradecer o momento presente. O tempo sem pressas.  
Deixou de ouvir o som da cidade por instantes e, compenetrada colocou os fones nos ouvidos ao som da Raquel. Trouxe para sempre consigo uma das melhores fotografias que a vida lhe deu.  

Vieram-lhe à memória outras recordações. Mas rapidamente a música lhe lembrou o quanto as memórias boas merecem ser guardadas num lugar feliz no nosso coração.

Sorriu ao olhar o Parque Eduardo VII pela última vez.


Há lugares mágicos. Não há?
Este é dos meus favoritos. Também é dos favorito D'Ela. 

Até breve, parapeito da minha janela para Lisboa. 

Um beijo, 
Pat




domingo, abril 28

Acordei às 4 da manhã para fazer uma sessão fotográfica


Há quem lhe chame loucura, eu chamo amor. 
Nunca é tarde ou cedo para fazermos uma coisa que adoramos fazer. E foi assim que, desafiada pelo David, acordei às quatro da manhã para ir fotografar ao nascer do sol. 

Há quem lhe chame mania esta coisa de pousar para as fotos, futilidade ou até quem fale do síndrome do querer aparecer. Não sabem nada. Não quero tão pouco saber.  

Eu falo em amor. Porque adoro fotografia, adoro fotografar e ser fotografada é mesmo um escape que me deixa a cem anos luz do resto do mundo. Divirto-me imenso a fazê-lo. Não, não é um frete para ter mais uma foto para o instagram. É uma terapia. E quem me conhece, sabe. 
Não importa se fica bem ou mal, o que importa é o tempo. O tempo que passa feliz. 

Às cinco da manhã estavamos a tomar o pequeno almoço numa bomba de gasolina - onde havia pessoas que ainda não tinham acentado o seu belo corpinho na cama -, a falar sobre fotografia e à espera que se levantasse a noite cerrada. Assim que a aurora começou a aparecer, viemos a mil para este lugar e esta foi uma amostra do resultado final. 

Estava frio. Mas ninguém notou após o primeiro clique. Uma pessoa esquece-se disso. 
Não se ouvia ninguém. A não ser os pássaros a esvoaçar, as ondas do mar a quebrar e os patos, pachorrentos, no seu acordar matinal. Em pouco menos de uma hora, várias cores invadiram o céu. E os meus olhos. Os nossos. 

O mar espelhava uma imensidão de azul. Mas do lado oposto, um arco iris de cores presenteou-nos com a certeza que, acordar a esta hora não é de loucos. 
De loucos é perdê-la, enquanto se dorme. 

Obrigada David. Isto foi TOP!

















terça-feira, abril 23

Se não estás feliz, MUDA!

  


Fotografia: Sofia Ramos (instagram @sophiebranches)


Nós tentamos sempre esconder os dias menos bons, os dias em que não apetece sorrir, os dias em que a nossa vida vai mal. Ensinou-nos o tempo que o devemos fazer só para garantir que nada piora.

Escondemo-nos de quem nos quer bem, para que não nos vejam mal. Garantimos estar tudo bem, para evitar juízos de valor – muitos deles com consequências gravozas. Fugimos dos problemas na tentativa que eles fujam de nós.  E por vezes, engolimo-nos numa bolha de energias negativas que em tudo contribuem para que nada melhore.

Eu quero falar-vos disto, para vos dizer que nem sempre esse é o melhor caminho, mas para vos garantir também que nem sempre é o pior. E que, independentemente do que se passe agora, vai ficar tudo bem.

O meu nome é Patrícia e estudei Gestão. Até hoje eu não sei o que mais amo fazer, de entre uma série de coisas que me preenchem a alma nesta vida e que eu sei que sei fazer bem. É..! Há pessoas que fazem várias coisas e bem feitas. E sim, nem toda a gente nasceu com um carimbo que as destina a ser médicas, advogadas, artistas ou engenheiras. Porque elas podem ser o que elas quiserem.

E eu licenciei-me em Gestão exatamente por esse motivo: para ser o que eu quiser.

Comecei a trabalhar antes de acabar os estudos. Trabalhei em sitios que nunca imaginei. Trabalhei em mais do que um sitio em simultâneo. Mas nunca tinha feito algo que não me preenchesse a alma.

E é sobre isso que vos quero falar hoje. Não por mim, mas por vocês.

Ponderei fazê-lo durante vários meses. Hoje tenho a certeza que o posso fazer .Mais não seja para vos garantir que fica mesmo tudo bem. 

Quando somos lançados no mundo do trabalho não somos ninguém, a não ser alguém ambicioso o suficiente para nos querermos tornar na Ana que é boa profissional , no José que é um bom veterinário ou na Maria que é reconhecida como uma excelente advogada. Sem esquecer a Inês que é uma artista plástica sem igual, na Sofia que é a atriz da berra ou a Joana que ganhou prémios com a melhor fotografia do ano. 

É exatamente assim que começamos. Degrau a degrau, a subir a escada sem corrimão da vida profissional. Escorregando aqui, voando ali, saltando uns degraus a mais, caindo uns quantos para aprender a subi-los melhor, sempre com o objetivo de alcançar os nossos sonhos. Não estranhem se passarem de bestial a besta, num ápice. Mas tenham a força de nunca desistir de serem vocês mesmos.

 Não sei se fui feita para ser uma sonhadora de vários sonhos, ou se sou apenas uma pessoa sem norte. Creio ser a primeira. Mas como já me rotularam de várias formas, deixo aqui aberta a via das dúvidas.

Licenciei-me em gestão porque queria ser o que eu quisesse. O que eu ainda não tinha percebido, é que isto também dava para ser coisas que não me preenchem a alma. E foi assim que, há cerca de um ano e meio atrás, aceitei um desafio profissional que tudo tinha a ver com o que estudei, que eu quis experimentar e de que, verdade seja dita, até gostava em parte, mas que .... não me fazia feliz.

Um tiro no pé. 
Uma jovem em ascensão profissional num local onde adora trabalhar, com colegas profissionais, um ambiente positivo, que aceita um desafio que até lhe está a correr bem, especialmente aos olhos dos outros ..... mas que não a faz feliz.  

E agora? – perguntei-me eu e perguntam vocês.

E agora só tens duas opções: ou continuas infeliz ou te enches de coragem e bates com o punho na mesa e mudas o rumo.

Parece fácil! 

Parece fácil para quem não trabalha numa empresa onde adora trabalhar, com pessoas com quem gosta de trabalhar, com um ambiente de trabalho positivo e com uma profissão que tinha tudo para dar certo, mas que .... lamentavelmente não nos faz feliz! Repito. Repito para que percebam o peso de não se ser feliz. 

Logo eu, que desde que me lembro nunca me faltou vontade de ir trabalhar. 
Acontecia que ao Domingo depois de almoço, já estava em stress por a seguir ser segunda-feira. Saia do trabalho com um misto de emoções contantemente; orgulhosa do que realizei, mas de lágrimas nos olhos por não o fazer de alma e coração. Eu, que gosto de conhecer pessoas novas, ser criativa, .... estava fechada num escritório nove horas, com dois monitores replectos de números à minha frente, sem tão pouco saber se era dia ou noite lá fora. 

Não era eu. E era exatamente por isso que não era feliz.

O que eu vos quero dizer, é que em cada caminho que escolhemos, há 50% de hipóteses de não dar certo.  E não há problema nenhum nisso. 
Somos completamente livres de errar no caminho, com a única condição de nunca desistirmos daquilo em que acreditamos, sem antes tentarmos com unhas e dentes. Se der errado, uma coisa é certa: sabes que aquele caminho não voltas a percorrer. 
O que, convinhamos, é uma vitória; Mais do que saber o que queremos, é tão bom saber o que não queremos. 

Mentaliza-te apenas que, se fores sem certezas, terás de ir vestido(a) com um colete de coragem.

Coragem para, se no fim tudo der errado, te ergueres e construires um novo começo. 
Verás como os dias maus serviram para valorizares o melhor que a vida te vai dar a seguir.

Pois, como o meu pai me disse uma vez, “Se estiveres em cima de uma pedra e vires que vais cair, não te preocupes com a queda, senão cairás mesmo. Preocupa-te em encontrar uma nova pedra, para saltar e continuar o caminho”.

Eu consegui. 
Tu também consegues. 

Se não estás feliz, MUDA!

Patrícia Luz
23 de Abril 2019

domingo, abril 7

Uma vida de luxo


 




Há dias, não há muito tempo, fui assistir a uma conferência onde pessoas inspiradoras e muito talentosas falaram de vários temas, de entre os quais, um deles era "o luxo".


Durante os últimos dias tenho estado realmente a pensar o que raio é isto do luxo e quais as várias acepções que podemos ter para este tema e cheguei a uma conclusão.

Luxo é uma métrica que pode ser o que tu quiseres que seja. 

Há algum tempo atrás, quando pensava nesta palavrinha de quatro letras, vinha-me instantaneamente à cabeça muito dinheiro. Muito dinheiro gasto em coisas muito caras. Coisas muito caras que custam muito dinheiro. Hotéis, jóias, carros, casas, roupas, acessórios, ... enfim, uma panóplia de coisas que só no nosso imaginário poderão um dia vir a ser nossas, no caso de pertencermos aquela percentagem de pessoas no mundo que, têm uma vida singela e, até então, ainda não tiveram a sorte de acertar nos números mágicos daquela simples, mas complexa, cautela do euromilhões.

Hoje não. 

Aprendi que luxo pode ser apenas o que me faz feliz. O que me surpreende. Aquilo que me deixa com o coração calmo, os pés assentes firmemente na terra, o que faz a minha cabeça viajar sem sair do sitio. 

Luxo não é nada do que imaginei há uns tempos atrás.

Porque luxo, para mim, é caminhar descalça por aí. Sentir o alcatrão quente nos pés, ou a areia nos dias de verão. Vir salgada da praia e tomar um banho de mangueira, com aquela água que o sol aqueceu. Comer um sargo assado no mesmo braseiro que assou pimentos verdes e, acompanhar tudo isso, com tomate rosa da horta mais próxima. 

Luxo é acordar todos os dias com saúde: respirar fundo para garantir que estamos vivos, todas as manhãs. 

É ver o nascer do sol, quando todo o mundo ainda dorme. Poder, por isso, receber a calma da cidade que nesse momento desperta, encantada pelo palrear dos pássaros. Luxo é poder ver. É ter olhos para poder contemplar o céu colorido num final de tarde abrasador. É ter pele, para poder sentir a brisa fresca das noites de primavera ou aquela lufada de ar quente nos finais de tarde de verão. Luxo é sair do trabalho e poder correr num contra-tempo até à praia mais próxima, para ouvir o barulho do mar. Poder vê-lo a espelhar o céu, ou a lutar contra as falésias em dias de tempestade. É despir as roupas todas que não nos fazem falta e mergulhar nele. Observar os peixes na sua vida delicada. E voltar a terra com uma serenidade absoluta. 

Luxo é entrar numa taberna sem luxo nenhum, e além do sorriso do lado de lá do balcão, ter os sabores de uma vida numa só mesa. É ser tratado pelo nome próprio, no dia do regresso ao mesmo local. 

É ter pernas para correr. Correr atrás dos sonhos.   

É muito mais do que isso. 
É viver numa família unida e feliz. É ter um pai, uma mãe e um avô para abraçar quando o mundo à nossa volta desaba.
Hoje em dia, é ter um amigo. Aquele que em momento algum nos irá falhar; aquele, 
com quem temos a certeza que podemos fechar os olhos e cair em queda livre, que ele estará lá, como uma rede trapézio para nos amparar. 

Luxo é poder sentir o cheiro da natureza. A terra molhada. A chuva a cair. 
Ouvir a chuva bater nas vidraças, enquanto, do lado de cá, podemos sentir o quentinho de um abrigo, que tanta gente não tem. Debaixo dos cobertores de uma cama, que para tantos não existe. 
Abraçar com as mãos frias, uma caneca de chá quente. 

Luxo é ter uma estante de livros a olhar para nós.
Termos tido a sorte de ter aprendido a ler e usufruirmos da benção de poder absorver o que alguém um dia escreveu. 
É existir a música perfeita para cada ocasião. É ela ter o poder de nos curar.  

É ter paz de espírito, num mundo excessivamente veloz, cada vez mais deprimido e solitário.
Garantir um coração sereno, uma vida saudável, uma mente sã, uma alma limpa. 

Tantas vezes achei que luxo era coisa de pessoas ricas.

Hoje entendo, que rica sou eu, pois nunca precisarei de jóias, carros, hotéis, ou o que seja, para me sentir grata por tudo o que de melhor me rodeia.

Esperamos tanto por coisas que talvez nem cheguem e esquecemo-nos de parar, olhar ao redor, abrir os braços e apertar junto ao coração tudo aquilo que o universo nos ofereceu, de mão beijada. 

Luxo? Luxo é ser grato. 
Luxo é ser feliz com as coisas grátis da vida.  

Patrícia Luz
7 de Abril 2019







. 

quarta-feira, setembro 12

Primeiro dia de Aulas | Quem se lembra?

Tinha cinco anos, palmo e meio de altura. Menos de metade dos dentes e o cabelo cortado à menino, porque, diz o meu pai, fui eu que quis assim por solidariedade com o meu irmão, que não gostava lá muito de cortar o cabelo nas férias de verão. Não me lembro ao certo disto, mas lembro-me de ser feia como o raio. 

Se me perguntarem acerca dos últimos dias de férias antes de se dar inicio a jornada de estudante até ao que me tornei hoje, talvez  eu me lembre melhor e vos possa dizer como era divertido fazer asneiras no pátio da casa dos nossos avós. Porque depois disso, tudo foi uma correria entre férias e não-férias. 

Começou desde então a existir uma cronologia na nossa existência.  

 1º ano, 2º ano, turma do 5ºC, 10ºD. Os amigos daquele ano. Os do ano seguinte. Quando andava na escola de Pataias, quando afinal a da Penha é que era. Mas quem se pode esquecer da "Nova" ou dos tempos de Liceu? E a faculdade?

Antes dos cinco anos como se contabilizava o tempo? Pelas festinhas de aniversário na casa uns dos outros? Só pode.  

Com cinco anos eu entrei para a escola primária de Pataias e lembro-me como se fosse hoje, apesar de não recordar grandes pormenores. Tirando a Carolina, era talvez a mais nova da turma, como sempre fui, até à conclusão dos meus estudos. Um bebé atirado à vida. 

Como referi, não me lembro de muita coisa, mas lembro-me que não chorei. A minha primeira professora chamava-se Lurdes e era muito gordinha, tinha os cabelos curtos encaracolados e era muito querida. Quão lhe posso agradecer por hoje saber ler e escrever estas letrinhas que, juntas, formam palavras com algum significado. 

Lembro-me muito bem do Duarte. Com aquele ar reguila de pião de madeira que o pai lhe fizera debaixo do braço. Da Melissa que era a mais bonita da escola e da Jéssica, a minha melhor amiga desde o berço, quase. Da Vilma, a nazarena a quem roubava bolicãos e filipinos no ATL, do João a quem dava beijinhos na boca às escondidas nas traseiras da escola, do Flávio que era o vizinho da minha rua, da Vera que era a melhor aluna, do Hugo porque faziamos o mesmo caminho para a escola, da Carina, da Andreia, da Susana, do Nuno.... enfim! Acho que é impossível esquecer os nossos parceiros do abecedário e contagem crescente até cem, certo? 

Já nos conheciamos, a maioria, das aventuras do infantário. Das corridas de pneus ou dos carnavais vestidos de batmans e cinderelas,por isso, o primeiro dia de aulas não foi um choque. 

Lembro-me de estar entusiasmada por finalmente ir ter canetas e lápis novos. E de quando foi o momento de escolher o lugar na sala de aula, com os pais todos de pé ao fundo mais alarmados com a situação do que nós próprios! Lembro-me da mãe da Melissa de lágrima no canto do olho (ehehe). 

Lembro-me do abecedário colado na parede, com imagens de objectos a exemplificar cada letrinha. 
A - Abelha,
B - Boneco,
C - Cão,
D- Dado, 
E - Égua, 
F - Foca 

.... quem não? 

Lembro-me de acreditar que ia finalmente poder ensinar a minha avó a escrever bem o seu nome e a ler. 

Tantos sonhos. 
Tanta vida começou ali, naquele dia de Setembro de 1997. 

Quem mais se lembra do seu primeiro dia de aulas?  

Patrícia Luz
11 de Setembro de 2018



segunda-feira, setembro 10

A Educação Comodista

Hoje volto às palavras. 


Alguns vão criticar-me depois de ler o que vou escrever, outros vão estalar o canto da boca e bradar aos céus "deixa chegar a tua vez, que logo vemos como é". Mas neste momento é a minha opinião e porque sou livre de a dar num espaço que ainda é meu, eu vou fazê-lo. No dia em que mudar de opinião também sou Mulher de me ajoelhar e admiti-lo. Agora não!

 Sou aquela pessoa que gosta de passear e ocupar o meu tempo sozinha. Faço mesmo muitas coisas sozinha. Vou à praia numa boa, faço snorkeling de vez em quando, vou ao shopping e até prefiro assim, vou áquele restaurante que quero mesmo experimentar e, que, por sinal não houve ninguém com a mesma vontade que eu naquele dia (ou mesmo, porque me aborrece ir com "alguém": uma pessoa que não é aquela que eu quero que vá efectivamente comigo àquele lugar - não sei se já vos aconteceu ou se sou a única pessoa estranha neste mundo a gostar de partilhar sitios específicos com pessoas específicas), enfim, já cheguei a ir sair à noite sozinha até, porque verdade seja dita nunca estamos sós. E na maior parte das vezes até se torna divertido. 

É essencialmente por isso acontecer que me tornei uma pessoa bastante observadora de tudo o que está à minha volta. 

É facto, que quando estamos a jantar com alguém, por exemplo, temos algo suficientemente interessante para nos ocupar as atenções: com quem falar, para quem olhar, em quem tocar, sobre o que rir. Mas quando estamos a sós, tudo é exterior à bolha da nossa existência naquele momento, naquele local, àquela hora... e por isso mesmo, a não ser que sejamos um ser macambúzio e desinteressado por natureza, tudo o resto, passa a ser o nosso foco. 

Tenho, por isso, reparado na educação comodista dos dias de hoje e quero falar dela. Primeiro porque me entristece na medida em que estamos a formar o futuro e, depois, porque assusta-me ter que vir a viver assim: com mesas compostas de famílias que se reunem em silêncio por trás do ecrã dos telemóveis. Não há gritos! Não há chatices! Não há um diálogo! Os irmãos já não roubam batatas fritas uns aos outros, porque nem despegam do telefone para olhar para o prato do lado!?! Como assim? Ninguém sabe nada de ninguém?! Ninguém está verdadeiramente ali. Ninguém está a valorizar aquele momento fantástico que é o de terem todos os seus familiares sentados à mesma mesa? 

Crianças com três anos de idade, ou menos, comem a olhar para um tablet. Porquê?
«Ah porque se não for assim ele não come!» - Como assim, não come? Não se comia antigamente, nesta vida? 

«Porque é a forma de o ter sossegado!» - As crianças não nasceram para serem peluches de estimação! 

«Porque se não for assim, não conseguimos jantar sossegados com os nossos amigos.» - Então mas... quando se deitaram naquele dia de amor louco, não se lembraram que os jantares com os amigos nunca mais seriam os mesmos? 

Antigamente não era assim. Porque é que agora é? 

Logicamente porque a civilização evolui (nem sempre para um pólo extremamente positivo, convenhamos) e temos que nos adaptar. Ok! Então mas e.. temos mesmo que nos adaptar a algo que destrói a educação das normas de conduta em sociedade? A educação do bê à bá da vida? 

Na minha opinião não. 

Na minha opinião estamos a assistir a uma educação comodista de pais que não se querem dar ao trabalho. Que não se querem chatear. Que estão nem aí para se chatear. Que querem ter filhos e ter paz e sossego. Onde é que está a lógica?

Continuamos a criar pequenos monstrinhos de laboratório que nunca saberão o gosto amargo de um NÃO! Que nunca conhecerão o significado de um olhar durão - porque nem tão pouco tiram os olhos dos ecrãs para olhar para os pais. Que em poucos anos, estarão - como alguns até já fazem - a dar ordens aos pais. A fazer exigências. 

Há excepções? Claro que há. Há pais que regram as coisas! E não limitam o avançar da civilização aos seus filhos. Mas nada como ter conta-peso-e-medida. Porque até nisso é possivel a educação ter um papel activo. E a esses eu tiro o chapéu! 

Mas... e o resto? 

Sento-me nessas mesas muitas vezes sozinha a observar estas familias modernas, tão grandes e tão sós, tão avançadas tecnologicamente mas tão vazias do que realmente importa e penso o quão bom é viver na minha bolha. Mas quão triste é querer ter a minha família sentada à minha mesa e não ter. 

Há vinte cinco anos atrás, formar Homens para o bê à bá da vida era tarefa honrosa, para aqueles que a faziam bem. Hoje, esperemos que o google ensine.  

Beijinhos,  
Pat
10 de Setembro 2019